PAIGC – NOTA DE CONTEXTUALIZAÇÃO E DE ORIENTAÇÃO POLÍTICA

PAIGC – NOTA DE CONTEXTUALIZAÇÃO E DE ORIENTAÇÃO POLÍTICA

PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ E CABO VERDE

SECRETARIADO NACIONAL


NOTA DE CONTEXTUALIZAÇÃO E DE ORIENTAÇÃO POLÍTICA

  1. A crise pré-eleitoral
    A Guiné-Bissau atravessa uma das mais profundas crises políticas da sua recente
    história democrática. Desde Fevereiro de 2020, com a tomada do poder por Umaro
    Sissoco Embaló, que as instituições democráticas têm vindo a ser deliberadamente
    enfraquecidas.
    A Assembleia Nacional Popular (ANP), resultante das eleições legislativas de Junho
    de 2023, foi dissolvida 4 (quatro) meses após a sua investidura, em flagrante violação
    da Constituição. Em 2024, à revelia das leis e do regimento, a 2ª Vice-Presidente da
    ANP foi instalada, com a força das armas, como Presidente do Parlamento.
    Na sequência da dissolução inconstitucional da ANP, o governo da Coligação PAI-TR,
    apoiado por uma clara maioria absoluta no Parlamento, foi substituído por um governo
    de iniciativa presidencial, inexistente à luz do nosso ordenamento jurídico. Os órgãos
    jurisdicionais, em particular o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), foram assaltados
    para instalar pessoas da confiança do regime e a Comissão Nacional de Eleições
    (CNE), caduca desde Maio de 2022, não foi renovada.
    O calendário eleitoral foi desrespeitado. As eleições presidenciais que deveriam ter
    lugar antes do final do mandato do Presidente da República, em Fevereiro de 2025,
    foram adiadas e marcadas para Novembro de 2025.
    Às vésperas das eleições, tudo foi feito para escamotear a verdade eleitoral:
     O STJ foi reconstituído, através da eleição fraudulenta de um Presidente e
    Vice-Presidente, de forma manifestamente ilegal;
     O recenseamento eleitoral foi conduzido de forma unilateral e opaca pelo
    Governo, sem fiscalização efetiva das forças políticas e sem qualquer auditoria
    independente;
     Todas as reclamações, formalmente apresentadas pelos partidos não
    alinhados com o regime, foram sistematicamente ignoradas;
     Os Presidentes das Comissões Regionais de Eleições (CREs) foram todos
    substituídos, a um mês das eleições;
     A impressão dos boletins de voto foi transferida para órgãos nacionais sem
    garantias mínimas de transparência e de integridade dos ficheiros eleitorais;
     Candidatos e listas, em particular da PAI-TR e da API-CG, foram eliminados
    por via de expedientes manifestamente ilegais, numa demonstração brutal da
    substituição da força do direito pela “razão da força”;
     O Ministro das Finanças foi designado Diretor da campanha eleitoral da
    Plataforma Republicana e do seu candidato, o Presidente da República
    cessante, convertendo o Tesouro Público na caixa de financiamento dessa
    Coligação e do respetivo candidato presidencial, e tornando notória a brutal
    diferença de meios, para além do envolvimento das estruturas do governo e
    mesmo das forças de defesa e segurança.
  2. A crise pós-eleitoral
    Impedido de participar nas eleições legislativas e presidenciais, o PAIGC escolheu
    para seu candidato presidencial (por via de votação expressamente maioritária no
    Comité Central) o independente Fernando Dias da Costa, presidente do PRS, com
    quem celebrou um acordo para o efeito.
    A campanha eleitoral decorreu normalmente e sem incidentes de maior. As alianças
    políticas e os candidatos puderam fazer campanha com relativa liberdade. As eleições
    foram conduzidas de forma pacífica, como confirmado por todas as missões
    internacionais de observação, incluindo as da CEDEAO e do seu Conselho de
    Anciãos, da União Africana e da CPLP.
    No dia 26 de Novembro de 2025, a poucas horas da proclamação oficial dos
    resultados eleitorais, dispondo todas as partes envolvidas de atas oficiais que davam o
    candidato Fernando Dias da Costa como vencedor, o país foi surpreendido por um
    estranho e atípico golpe de Estado. O golpe interrompeu abruptamente o processo
    democrático em curso, confiscou a vontade popular expressa nas urnas e agudizou
    ainda mais a instabilidade política e institucional.
    Vários dirigentes políticos foram detidos arbitrariamente, com destaque para o
    camarada Domingos Simões Pereira, Presidente do PAIGC e da Coligação PAITERRA
    RANKA e Presidente da Assembleia Nacional Popular, e tantos outros foram
    perseguidos. A Sede do PAIGC e de outras formações partidárias foram encerradas e
    as atividades políticas dos partidos do espaço democrático foram proibidas.
  3. O posicionamento da comunidade internacional
    O golpe de Estado mereceu a condenação unânime de toda a comunidade
    internacional, nomeadamente da CEDEAO, União Africana, Nações Unidas, CPLP e
    outras organizações internacionais.
     A CEDEAO condenou nos termos mais fortes o golpe de Estado, exigiu o
    restabelecimento incondicional e sem demora da ordem constitucional, e
    decidiu suspender a Guiné-Bissau de todos os órgãos decisórios da
    Organização até ao restabelecimento pleno da ordem constitucional;
     A União Africana condenou inequivocamente o golpe, que considerou tratar
    de violação grave das normas africanas de governação democrática, apelou
    ao retorno à ordem constitucional, reiterou a política de “tolerância zero” face a
    mudanças inconstitucionais e indigitou um Enviado Especial para a Guiné-
    Bissau;
     A Organização das Nações Unidas condenou fortemente o golpe, apelou ao
    regresso ao quadro constitucional e ao respeito pelo processo democrático; o
    Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos manifestou preocupação
    com a violação de liberdades fundamentais e pediu às autoridades
    que respeitassem direitos, incluindo a liberdade de reunião e de manifestação,
    e evitassem o uso desproporcional da força;
     A União Europeia apelou ao rápido regresso à ordem constitucional e à
    retoma do processo eleitoral, defendendo que a proclamação interrompida pela
    intervenção militar deve prosseguir e os resultados das eleições devem ser
    respeitados; pediu ainda a libertação de todos os detidos extrajudicialmente e o
    respeito por direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos;
     A CPLP condenou a interrupção do processo eleitoral, apelou ao
    restabelecimento urgente da ordem constitucional, suspendeu a participação
    da Guiné-Bissau em todas as atividades da organização até à restauração da
    ordem constitucional e transferiu a presidência pro tempore da Organização
    para Timor-Leste.
    O posicionamento alinhado das principais instâncias internacionais e regionais gerou
    um isolamento sem precedentes das autoridades militares e civis decorrentes do golpe
    de Estado.
  4. O Quadro de Transição traçado pela CEDEAO
    A CEDEAO, reunida em Abuja no dia 14 de Dezembro de 2025, na 68.ª Sessão
    Ordinária da Conferência de Chefes de Estado e de Governo, condenou
    veementemente o golpe de Estado de 26 de novembro, rejeitou categoricamente o
    Programa de Transição anunciado pelo Alto Comando Militar, exigiu a libertação
    imediata e incondicional de todos os detidos políticos, mandatou a missão da Força de
    Estabilização da CEDEAO a dar proteção aos líderes políticos, deliberou a formação
    de um governo inclusivo que reflita o espetro político e social da Guiné-Bissau, bem
    como a aplicação de sanções contra quem bloquear o processo de retorno à
    normalidade constitucional.
    Contudo, apesar dos apelos persistentes dos partidos políticos e de várias
    organizações nacionais e internacionais, o regime imposto recusa-se até agora a
    respeitar as decisões da CEDEAO. Várias medidas que contrariam o roteiro político
    traçado pela CEDEAO, na Cimeira de Abuja de 14 de Dezembro de 2025, estão a ser
    tomadas pelas novas autoridades, incluindo:
     A revisão da Constituição, da Lei Eleitoral e da Lei Quadro dos Partidos
    Políticos, por um Conselho Nacional de Transição sem qualquer legitimidade
    política;
     A fixação, de forma unilateral, da data das eleições presidenciais e
    legislativas;
     A interdição de toda a atividade política dos partidos da oposição, através
    do encerramento das suas sedes, e a proibição de reuniões e de
    manifestações;
     O sequestro do camarada Domingos Simões Pereira, Presidente do PAIGC
    e Presidente da Assembleia Nacional Popular, apesar de todos os apelos para
    a sua libertação;
     A recusa em criar condições de segurança idóneas para os principais
    líderes políticos;
     O recrudescimento da violação dos direitos humanos por meio da violência
    e do terror.
  5. A Agenda Política do PAIGC
    O PAIGC, formação política histórica do país, parte da coligação PAI-TR, vencedora
    das eleições legislativas de junho de 2023, estabelece como a primeira das suas
    prioridades a luta pela reposição imediata da normalidade constitucional, o que
    pressupõe, antes de tudo, a libertação imediata, total e incondicional do seu líder,
    camarada Domingos Simões Pereira. A reposição da normalidade constitucional passa
    também necessariamente pelo cumprimento integral das decisões da CEDEAO saídas
    da Cimeira de Abuja.
    No âmbito dessas decisões, o PAIGC, enquanto partido, e no quadro da Coligação
    PAI-TR, expressou a inequívoca vontade de se envolver no processo de diálogo
    interno para encontrar soluções para a saída da presente crise política. Nesse sentido,
    juntamente com a Coligação API-CG, subscreveu um Manifesto Político Nacional que
    convoca os guineenses à reflexão e ao diálogo patriótico para o restabelecimento da
    ordem constitucional. O Manifesto dirige-se particularmente ao Alto Comando Militar,
    convidando-o, nomeadamente, a:
     Restabelecer as liberdades civis e políticas, designadamente a libertação
    total e incondicional do camarada Domingos Simões Pereira, o levantamento
    de todas as restrições à atividade política e o restabelecimento das liberdades
    de circulação e de expressão;
     Reabrir as sedes partidárias e pôr fim à perseguição a líderes e militantes do
    PAIGC e dos demais partidos democráticos;
     Cessar todos os atos de repressão, de intimidação e de violência contra a
    população em geral e, em particular, dirigentes da sociedade civil, jornalistas,
    ativistas e políticos;
     Promover o diálogo entre o Alto Comando Militar, as forças políticas
    relevantes e a sociedade civil, com apoio e facilitação da comunidade
    internacional (UA, CEDEAO, CPLP, ONU), visando:
     O restabelecimento da ordem constitucional;
     A avaliação das vias alternativas legais para ultrapassar a
    situação criada com a não publicação dos resultados eleitorais
    de 23 de novembro de 2025;
     A formação de um novo governo inclusivo que reflita o espectro
    político da sociedade guineense;
     A promoção da paz, da estabilidade política e da coesão
    nacional.
    Por outro lado, o ano de 2026 é o ano de duas efemérides importantes do partido,
    designadamente as celebrações do 70º Aniversário da fundação do PAIGC, a 19 de
    Setembro de 2026, e a realização do seu XI Congresso Ordinário. É por conseguinte
    imperativo que o partido possa ter acesso pleno à sua sede nacional e às sedes
    regionais, a fim de facilitar os trabalhos de organização e de mobilização das
    estruturas partidárias para estes dois importantes eventos.
  6. A posição do Partido relativamente às declarações dos
    “camaradas governamentais”

    Os elementos integrantes do intitulado «Grupo de Reflexão» apresentam uma
    caraterística comum: a pertença a um governo saído de um golpe de Estado, sem
    o consentimento dos órgãos competentes do partido. Esse facto, por si só, já lhes
    retira qualquer legitimidade, politica e moral, para estarem a falar em nome do partido.
    O artigo 16, alínea (o) dos Estatutos do PAIGC estatui o seguinte:
    “São deveres do militante do PAIGC, nomeadamente, não se apresentar em qualquer
    ato eleitoral, nacional, regional ou setorial, na qualidade de candidato, mandatário ou
    apoiante de candidatura adversária, nem aceitar o exercício de qualquer função
    política ou governativa, fora do quadro previsto nos Estatutos e Regulamentos, ou
    contra orientações definidas pelos órgãos competentes do Partido”.
    Ao terem aceitado integrar um governo sem orientações do partido, tendo alguns deles
    participado ativamente na campanha eleitoral de adversários políticos do PAIGC, ou
    candidatado às eleições presidenciais, com o apoio de outro partido que não o PAIGC,
    violaram inequivocamente os Estatutos do partido. Não lhes assiste, por isso,
    legitimidade política, nem moral, para estarem a criticar ou a tentar dar lições ao
    partido.
    Com efeito, são esses “camaradas governamentais”, cuja representatividade é
    absolutamente residual, quem tenta enfraquecer o partido, através do seu
    comportamento e das suas ações políticas. A sua relevância política é evidenciada por
    números, que não mentem: Dizem que o partido ganha eleições, mas não é capaz
    de se manter no poder. Levaram o mesmo argumento ao X Congresso Ordinário do
    PAIGC, em novembro de 2022, mas foram completamente rejeitados. Apenas 32
    delegados do Congresso (em 1450 delegados, ou seja 0,02%) concordaram. Mas este
    argumento é como um fantasma – quanto mais rejeitado pelos militantes do PAIGC,
    mais lhes serve de bengala.
    A verdade é que o PAIGC não consegue manter-se no poder (tal como nenhuma outra
    formação política) por causa das conspirações destes camaradas, ao promoverem e
    participarem continuamente em governos ilegítimos resultantes de golpes, que
    confiscam a vitória eleitoral do partido e do povo, que sequestram o líder do partido,
    que fecham a sede nacional e as sedes regionais do partido e que impedem a
    realização de todas as actividades políticas do partido.
    Dizem que a atual liderança está a gerir mal o partido, mas são os mesmos que se
    apresentaram como candidato às eleições presidenciais de novembro de 2025, em
    clara violação dos Estatutos do PAIGC, e que obtiveram apenas 716 votos, num
    universo de 600.000 eleitores. Este número diz-nos muito (também devia dizer-lhes)
    sobre o projeto político que representam. Traduzido em linguagem política significa
    que:
     O PAIGC fez a escolha certa ao não apoiar alguém cujo capital político
    (excluindo o peso do partido) é de apenas 0,1%;
     Os delegados ao X Congresso Ordinário do PAIGC, em novembro de 2022,
    fizeram a escolha certa ao elegerem um presidente do partido e uma direção
    que têm vencido todas as disputas eleitorais, sem qualquer exceção;
     O PAIGC, impedido de ir a votos, fez a escolha certa do seu candidato para as
    eleições presidenciais, e contribuiu decisivamente para a sua vitória, logo à
    primeira volta.
    Portanto, o PAIGC é um partido que ganha eleições, que enfrenta persistentemente
    todo o tipo de conspirações, mas que se mantém de pé; esses camaradas não dão
    conta (ou assim fingem) que a sua oposição interna só se arrasta porque o partido
    funciona na base da democracia interna e tem utilizado exclusivamente os
    instrumentos admitidos pela nossa constituição e previstos nos estatutos; prestariam
    um grande serviço ao partido, ao país e a sí próprios se aceitassem (ou aprendessem)
    a também respeitar esses ditames.
    Onde estão então os sinais de que o partido está a ser mal gerido?
    Destes “camaradas governamentais” não se ouve uma única palavra a respeito da
    libertação do líder do partido a que dizem pertencer, que continua sequestrado há
    mais de três meses pelo regime a que pertencem. E não se lhes ouve uma única
    palavra a exigir a reabertura da sede nacional do partido a que dizem pertencer,
    encerrada abusivamente pelo regime a que pertencem; não se lhes ouve uma única
    palavra que demonstre que são democratas e que merecem estar num partido
    democrático como o PAIGC.
    Fingindo ignorar esta realidade, vão apregoando a existência de uma falsa crise
    interna no partido e a necessidade de reunir urgentemente o Congresso, como se os
    Congressos podem ser preparados sem a liberdade dos militantes e sem atividade
    política conforme legalmente estabelecida. Contudo, mesmo perante todos os
    constrangimentos que lhe são impostos, a direção do partido tranquiliza todos os
    dirigentes, militantes e simpatizantes de que todas as providências, política e
    materialmente possíveis, estão a ser levadas a cabo para a convocação e realização
    do XI Congresso Ordinário, dentro dos prazos legais estatutários.
    A unidade e a coesão de que falam é hoje apanágio do PAIGC, sendo esses
    “camaradas governamentais” o único grupo dentro do partido que, ao longo dos
    últimos anos, olhando exclusivamente para os seus interesses pessoais, tem
    conspirado, de forma sistemática, para minar a unidade e coesão, nomeadamente,
    com o inglório esforço de provocar um congresso extraordinário para satisfazer a
    agenda política do «Chefe Único» ao serviço de quem se encontram, como toda a
    gente já percebeu.
    O PAIGC continua a ser um partido forte, unido e coeso, guiado pelos seus valores e
    princípios e inspirado nos ideais libertadores de Amílcar Cabral e dos combatentes da
    liberdade da Pátria.